Existem alguns números que são quase cabalísticos: todo mundo sabe de cor. Do 24 no veado no jogo do bicho ao número de copas do mundo que o Brasil já ganhou, é o tipo de informação que você armazena quase que um dogma: aquilo ali não vai mudar (no caso das copas pro Brasil, o fraco desempenho da seleção reforça essa tese). No meu caso, um desses números era a população do planeta. Desde que me entendo por gente, em qualquer livro de geografia do ginásio (é... olha a idade aí) o número era o mesmo: 6 Bilhões.
7 Bilhões: Esse é o número mágico da semana nos jornais. Segundo estimativa da Organização das Nações Unidas, esse é o número de seres humanos no planeta atingido esse mês. O espanto com a mudança “repentina” foi para mim, sem dúvida, algo a se pensar.
Qual o impacto desse bilhão de pessoas a mais no mundo? A principio, para nós brasileiros será muito próximo de zero, na verdade, mesmo se pensarmos no mundo como um todo, a ordem das coisas não se altera muito.
Qual o alarde então?
Alarde nenhum... se contas começarem a serem feitas. Afinal, canja de galinha e planejamento nunca fizeram mal a ninguém.
Bom, o primeiro fato que deve ser levado em consideração é que esse bilhão de pessoas nasceu basicamente no sudeste da Ásia e África. Sendo estas algumas das regiões mais pobres do planeta, espera-se uma maior concentração global da renda na mão de um percentual menor ainda de pessoas. Um desastre social, claro: 1 bilhão de novos desastres sociais, mas apenas “mais do mesmo”... longe dos olhos, das lentes e das redações dos países mais desenvolvidos .
Mas mesmo que essas pessoas atravessem a chamada linha de pobreza e passem a fazer parte da famosa classe dos “consumidores globais”?
A solução dentro do sistema atual é controversa. A nova revolução agrícola que se inicia passa por uma série de questionamentos. Os alimentos geneticamente modificados, capazes de resistir a pragas e ao clima, e portanto menos sucetíveis a quebras de safra são uma opção, mas qual a sua eficiência e a questão de saúde são ainda icógnitas.
Existe também a expansão da fronteira agrícola. Mas falar isso é invocar uma verdadeira Jihad contra os ambientalistas. Eu mesmo não morro de amores pela idéia que o homem não deve alterar ou adaptar a natureza que o cerca para gerar mais desenvolvimento e conforto para os seus similares, mas entendo o ponto e é sim necessário traçar um limite: até porque a ampliação de lavouras não é uma solução definitiva. No limite, mesmo que se transforme toda a área não-urbana do planeta em terra cultivável, chegaríamos no teto de produção e teríamos um novo problema de oferta.
Bom, ai entramos no campo da economia... e da sua famosa lei de oferta e demanda. Se meramente alimentar a população atual já se mostra um desafio econômico e logístico, o cenário fica realmente negro se imaginarmos a projeção de 10 bilhões de pessoas no final do século.
Thomas Malthus, no século XVII, já havia alertado para uma situação similar, onde a população crescia muito além da capacidade de geração de alimentos da humanidade. Bem, ele certamente não foi capaz de prever toda a revolução da agricultura que se seguiu, mas a teoria dele volta a ganhar peso nesse momento.
O ritmo de crescimento, tanto populacional, quanto em última análise o próprio crescimento econômico (antes de comprar iPads, as pessoas precisam comprar arroz), se sustenta apenas com sucessivas melhorias na produtividade do campo. Isso já foi visto no passado e foi o que desacreditou Malthus. Irrigações, rotatividade de plantio, pesticidas, maquinário no campo... todos esses impactos de produtividade garantiram que a oferta de alimentos acompanhasse a demanda na teoria.
Porque na teoria? Bem, esse na verdade é o tema central do meu texto. A apesar do crescimento populacional, o crescimento da demanda não foi proporcional. Isso nos leva a duas possibilidades: a primeira é que cada indivíduo está unitariamente comendo menos: uma espécie de dieta global... que não me parece fazer muito sentido. A outra possibilidade, que essa sim me parece fazer mais sentido é que nem todos os novos seres humanos no mundo estão entrando na “fila do sopão”. Ou seja, apesar dos modelos econômicos nos mostrarem que hoje não temos escassez de alimentos, ninguém pode afirmar isso com certeza, sem pelo menos estimar qual seria a demanda total incluindo todos os famintos do planeta. Eu não sei, e não fiz contas, mas temo que a conta não feche.
Sim, algo deve ser feito. Não acho que a situação vá causar uma situação de guerra catastrófica, como já vi algumas pessoas preverem. Mas a situação de famintos no mundo hoje, já catastrófica, vai se intensificar.
As soluções não são muito originais. E difíceis de imaginar que sejam implementadas.
A primeira é a racionalização do crescimento populacional. Nos países mais desenvolvidos e em outros nem tão desenvolvidos assim (como o Brasil) essa questão me parece bem encaminhada. Mas em outras regiões, algumas por pobreza e falta de recursos (ou falta de programas sociais), outras por falta de conhecimento e outras tantas por questões culturais (como a poligamia e falta de direitos das mulheres por exemplo), o desafio de conter o crescimento é enorme.
Outra possibilidade é a racionalização da produção e do consumo. Hoje ao longo do processo de produção temos inúmeras perdas e desperdícios, impossíveis de medir, que oneram a nossa capacidade total de geração de alimentos. Exemplos são muitos: produtos que estragam em depósitos, burocracias alfandegárias e portuárias, até mesmo pirataria. No consumo tais desperdícios também ocorrem, mas numa escala muito mais micro e individual. É mais o menos o “não deixa comida no prato menino” que ouvimos de nossas mães multiplicado por 7 bilhões.
Mas o ponto que pode gerar mais impacto na equação é uma mudança na matriz de consumo de alimentos global.
HEIN?
Explico: se fizermos uma simplificação, que para a produção de 1kg de alimento, precisamos apenas de uma área de x metros quadrados, é bem evidente que cada alimento tenha um valor de X diferente. Produzir trigo é muito mais fácil que produzir 1 kg de filé mignon por exemplo. Racionalizando esses consumos, indo em direção dos alimentos mais básicos (em geral aqueles que não gostamos de comer: legumes, verduras e frutas) e que tem uma produção mais simples em detrimento de outros (como carnes por exemplo, e vocês não tem idéia de como me dói escrever isso), é possível alimentar um maior número de pessoas com a nossa capacidade atual.
Existem várias possibilidades para fazer isso, mas já seria assunto de um outro texto.
EMILIANO CARDOSO é formado em economia, gosta de comer churrasco e não gosta de multidões. Mas estava sem nada para fazer e escreveu essas palavras.