quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vovó com bíblia investe em chinês.

                É melhor ouvir certas coisas do que ser surdo. Bem, pelo menos era isso que acreditava aquele pobre protestante naquele início de noite, daquela fatídica segunda feira de verão.
                Este que vos narra, teria ido visitar seu tio, em um bairro da zona sul da bela Rio de Janeiro. Como tinha marcado com meu primo de chegarmos juntos, e estivesse um pouco adiantado, resolvi esperar por ele em um dos bancos que guarnecem a praça onde se situa a estação do metrô.
                Fiquei observando um bicicletário que haviam instalado, onde aparentemente se aluga uma bicicleta cor de laranja. Me perguntava como aquela budega funciona quando duas simpáticas velhinhas se sentaram ao meu lado. Como nada disseram, também me calei. Tornei minha atenção para o bendito bicicletário, tomando algum conforto em perceber que não era o único sem a menor ideia de como se operava aquele treco, o que inferi pela cara de bobo que as outras pessoas faziam quando liam as instruções da geringonça. (Não, eu não me levantei para ler as instruções. Sim. A preguiça era maior que a curiosidade.)
                Foi aí que aconteceu. Um homem de meia idade, vestido com um terno uns dois números maior que o seu corpo, portando uma bíblia surrada debaixo do braço e alguns folhetos do que seria um “flyer” da sua fé, aborda as doces vovós que conversavam baixinho entre si. O homem estava provavelmente iludido pela mesma impressão que eu tivera momentos antes: que se tratava de senhoras amáveis com toda a paciência do mundo para ouvir sua ladainha.
                Caros amigos, nota mental: as aparências enganam.
                O homem não parecia ser um profundo conhecedor da sua crença, mas apenas um fiel, que teria encontrado conforto naquelas palavras e as repetia de forma fervorosa, como se fossem respostas genéricas para todos os problemas (uma espécie de “tchuim-tchuim-tchum-claim” de Deus). Aproximou-se das senhoras e desferiu:
                - JESUS CRISTO É O CAMINHO, A VERDADE, E A VIDA!
                Corri meus olhos para a entrada do metrô, esperançoso de que meu primo tivesse chegado, certo que seria a próxima vítima da pregação. Eu não estava preparado espiritualmente para o que se seguiria.
                As velhinhas eram verdadeiros leões em pele de cordeiro. Tratava-se de testemunhas de Jeová à paisana. Elas se identificaram como estudiosas da bíblia e mandaram na lata do seu interpelante que ele estava falando merda.
                - O SENHOR NÃO SABE O QUE ESTÁ FALANDO! JESUS ERA UM MERO HOMEM. QUEM TEM PODER E EM QUEM SE DEVE TER FÉ É EM SEU PAI!       
                O homem sentiu o baque, mas como todo crente recrutador que se preze, ele sabia receber uma patada, e respondeu de pronto:
                -E Jesus disse: E NINGUÉM VAI AO PAI, SENÃO POR MIM!
                Caros leitores, juro que queria fazer um relato melhor. Mas o que se deu a partir daí foi uma verdadeira repente nordestina de salmos, e eu logo me perdi. O homem desferia um e as velhinhas retrucavam com outros três ou quatro. O homem foi perdendo o seu ritmo enquanto o das vovós ensandecidas aumentava rapidamente, sendo que em certo ponto elas já estavam terminando o salmo que o pobre infeliz tentava recitar, e o utilizavam contra ele!
                A uma hora dessas eu já estava até gostando. Já tinha me acomodado no banquinho e saboreava uma pipoca enquanto assistia de camarote o massacre do desafortunado cristão. O homem parecia um filhote de urso que ia abocanhar o favo de mel e enfiou o pé na armadilha.
                Rechaçado pela fúria da terceira idade, o homem começou a murmurar coisas tipo “eu não vou conseguir convencer as senhoras, vocês tem que aceitar Jesus na vida de vocês” e foi saindo de fininho.
                Ainda estava tonto com o que tinha acontecido quando percebi que agora era eu que estava sozinho na jaula dos leões beneficiários do INSS. Era tarde demais. Eu deveria ter aproveitado a oportunidade para fugir ao invés de ficar me divertindo com a desgraça dos outros, agora eu pagaria com os meus ouvidos.
                Preparei-me para o impacto, mas foi tranquilo. Provavelmente elas já tinham gastado a munição pesada no pseudo-pastor. Mantive a calma, falei que já tinha ouvido falar delas (as testemunhas de jeová), recebi o panfleto das senhoras e ouvi um pouco do que elas entendiam pelo estudo da bíblia. Rápido mesmo. Mas antes que elas me deixassem, ainda largaram a última pedrada.
                As testemunhas de Jeová estão aprendendo a falar chinês para ter acesso à sua crescente população aqui no Rio de Janeiro. O que quer dizer que da próxima vez que você for comer um joelho e beber um suco de caju¹, é possível que te perguntem se você gostaria de participar de um grupo de estudiosos da bíblia.
                Fale o que quiser, mas eles não discriminam ninguém na hora de chatear.

1-zoeio i cazú. Prato típico das pastelarias chinesas.

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