Eu me amarro no Natal. De verdade. Acho uma época do ano
diferente, as pessoas me parecem com um espírito mais alegre, as casas
iluminadas, as ceias e os milhares de eventos de fim de ano, com os diferentes
grupos de amigos. Tudo isso me deixa de alguma forma mais animado nessa época
do ano, e nem os shoppings lotados e os gastos extras desse período conseguem
quebrar essa magia.
Ah, então nada te tira do sério nessa época? Quem me dera.
Aconteceu comigo recentemente. Estava eu indo calmamente
abastecer o meu carro, atividade mais que corriqueira ao longo do ano. Quando
ao final do serviço realizado, entrego meu cartão para fazer o pagamento e ouço
a maldita frase: “Fica a vontade pra fortalecer a caixinha de Natal da galera
aí. Se quiser, pode passar até no cartão.”
Pausa para reflexão nessa frase, que tem 2 pontos que eu
acho dignos de nota (e de crítica):
![]() |
| Caixinha de Natal no século XVIII |
A Caixinha de Natal: quem já teve a oportunidade de
conversar comigo, sabe qual minha opinião sobre essa prática. Acho um acharque
ao bolso do cidadão disfarçado de uma “bondade natalina”. A idéia é apelar pro
“espírito natalino” citado no primeiro parágrafo e pedir uma pequena
contribuição... afinal, é uma pequena contribuição para fazer o Natal de alguém
mais feliz, certo? Ok, certo. O problema é a forma como o pedido muitas vezes é feito. A sensação as vezes é similar à abordagem de um flanelinha. Se for o caso de um serviço que precise ser feito em recorrência, a pena por não doar pode ser elevada (e a forma de cobrança ainda mais ostensiva).
Além disso, o funcionário da loja ao lado acha a idéia
excelente, e copia. E o padeiro. E o carteiro. E o lixeiro. E o policial...
pensando bem, esse pede caixinha o ano todo. Resumo da Ópera: Todo mundo ganha
caixinha de Natal, menos uma pessoa: isso mesmo, é VOCÊ, que sustenta essa
corja e essa prática. Me chame de escroto, mas me recuso a dar caixinha de natal
pra quem quer que seja. Caixinha de Natal todo mundo ganha, é o 13º e fim de
papo.
A Forma de Pagamento: esse ponto é a novidade. Vou tentar
transcrever a cena que aconteceu comigo de verdade. O diálogo foi mais ou menos
assim (com o perdão de algumas coisas que posso ter omitido pela minha falha de
memória).
Eu: Completa com gasolina comum por favor.
Atendente: ok.
(enche o tanque)
Atendente: Foi xxxxx reáu. Crédito ou Débito?
Eu: Sempre Crédito.
Atendente: Fica a vontade pra contribuir com a caixinha de
Natal da galera ae.
Eu (tentando me safar): Pô, tô sem dinheiro...
Atendente: Tudo bem, a gente aceita cartão.
Eu: Hein?
Atendente: É. Você passa um pouco mais no cartão e a gente
tira o dinheiro do caixa.
Eu (ainda incrédulo, levei um tempo pra responder): ...
entendi. Mas passa o valor da conta mesmo.
Eu não tava acreditando naquilo. PQP! Cartão de Débito e
Crédito pra caixinha de Natal? Eu achei isso beirando o hilário... até porque só pode ser piada. Tal qual
algumas Igrejas inescrupulosas que agora cobram dízimo no cartão (e tem assessorias de
cobrança pra quem tá atrasado na "mensalidade"), agora a caixinha 2.0 vem com
essa novidade. Só falta o malandro virar pra você e disparar: Agora nós
facilitamos para que você faça o bem, pois sabemos que você está cheio de
vontade de contribuir, mas está sem dinheiro no bolso...
É muita cara de pau. É uma prática famigerada, maldita,
inescrupulosa e vil. Com o bônus de ser disfarçada de bondade e amor ao
próximo. Eu já não gostava de contribuir, agora mesmo que não dou um centavo.
Cambada de filho da puta.
EMILIANO CARDOSO não é pão duro, mas não dá um centavo pra esses caras, e acha que ninguém deveria dar.


